O que é a ultrassonografia com contraste?
A ultrassonografia convencional permite avaliar principalmente a morfologia e a ecogenicidade dos órgãos.
Entretanto, uma lesão pode apresentar aparência semelhante a outra na ultrassonografia modo B e possuir comportamento vascular completamente diferente.
É nesse ponto que entra a CEUS.
A técnica utiliza microbolhas preenchidas por gás e envoltas por uma cápsula estabilizadora. Quando submetidas ao ultrassom, essas microbolhas produzem sinais acústicos intensos que podem ser detectados por equipamentos com tecnologia específica para contraste.
O resultado é a possibilidade de observar como o sangue chega, se distribui e desaparece de uma determinada região em tempo real.
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Por que utilizar contraste no ultrassom?
Na ultrassonografia convencional, muitas lesões podem ser identificadas, mas sua caracterização pode permanecer limitada.
A CEUS acrescenta uma dimensão funcional ao exame.
Em vez de avaliar somente:
"Como é essa lesão?"
passamos a investigar:
"Como essa lesão é perfundida?"
Isso permite estudar:
-
vascularização;
-
perfusão arterial;
-
perfusão venosa;
-
distribuição do fluxo;
-
áreas de necrose;
-
padrão de realce;
-
velocidade de entrada do contraste;
-
velocidade de eliminação do contraste.
Essa avaliação dinâmica pode fornecer informações adicionais importantes para a caracterização de determinadas lesões.
Como funcionam as microbolhas?
As microbolhas são agentes intravasculares.
Após a administração, elas circulam pela corrente sanguínea e podem ser acompanhadas durante as diferentes fases de perfusão.
De maneira simplificada, podemos observar:
1. Fase arterial
O contraste chega inicialmente pelas artérias que irrigam o órgão ou a lesão.
2. Fase portal ou venosa
Dependendo do órgão estudado, ocorre a distribuição progressiva do contraste pelo sistema vascular.
3. Fase tardia
O contraste começa a desaparecer da circulação, permitindo observar o chamado wash-out.
A avaliação do comportamento durante o wash-in e wash-out constitui uma das principais informações funcionais fornecidas pela CEUS.
Principais indicações em cães e gatos
1. Lesões hepáticas
Uma das aplicações mais estudadas da CEUS é a avaliação do fígado.
Pode ser utilizada para investigar:
-
nódulos;
-
massas hepáticas;
-
hiperplasia nodular;
-
adenomas;
-
carcinomas;
-
metástases;
-
lesões indeterminadas;
-
alterações vasculares.
Quando a ultrassonografia convencional identifica uma lesão focal cuja natureza permanece incerta, a avaliação dinâmica da vascularização pode fornecer informações adicionais importantes. As recomendações internacionais para CEUS hepática enfatizam a análise sistemática das fases de realce e do wash-out.
2. Avaliação do baço
A ultrassonografia contrastada também possui aplicações importantes na avaliação esplênica.
Pode auxiliar na caracterização de:
-
nódulos esplênicos;
-
massas;
-
áreas de infarto;
-
hematomas;
-
alterações vasculares;
-
processos neoplásicos.
Estudos em cães e gatos demonstram que a CEUS permite avaliar a arquitetura vascular esplênica e o comportamento perfusional das lesões em tempo real.
Isso é particularmente interessante em pacientes nos quais a ultrassonografia convencional demonstra uma alteração focal, mas não permite estabelecer uma caracterização suficientemente segura.
3. Rins
A CEUS pode ser utilizada para estudar:
-
perfusão renal;
-
lesões focais;
-
alterações vasculares;
-
diferenciação entre estruturas normais e massas;
-
avaliação de determinadas alterações perfusionais.
Como as microbolhas permanecem no espaço intravascular e não são eliminadas pelos rins da mesma maneira que contrastes iodados, a técnica possui características farmacocinéticas particulares. As recomendações técnicas atuais inclusive descrevem a possibilidade de utilização de doses menores em exames renais devido à elevada vascularização do órgão.
4. Intestino
Uma das aplicações mais interessantes e emergentes é a avaliação da perfusão intestinal.
A CEUS pode fornecer informações sobre:
-
perfusão da parede intestinal;
-
vascularização;
-
inflamação;
-
alterações isquêmicas;
-
comprometimento vascular;
-
viabilidade tecidual.
Uma revisão recente sobre CEUS intestinal em cães destaca o potencial da técnica para avaliação da perfusão intestinal, embora ainda existam diferenças entre protocolos e necessidade de maior padronização veterinária.
5. Avaliação de tumores
A vascularização tumoral pode ser diferente da vascularização dos tecidos normais.
A CEUS pode demonstrar:
-
hiperperfusão;
-
hipoperfusão;
-
vascularização heterogênea;
-
áreas necróticas;
-
padrões de entrada do contraste;
-
padrões de wash-out.
Isso pode auxiliar na caracterização de determinadas massas e na seleção de regiões mais representativas para procedimentos intervencionistas.
É importante destacar: a CEUS não deve ser interpretada como substituta automática da citologia ou histopatologia. O diagnóstico definitivo de muitas neoplasias continua dependendo da avaliação celular e/ou histológica.
6. Avaliação vascular
A CEUS também pode ser empregada para investigar estruturas vasculares e alterações relacionadas à perfusão.
Entre as possibilidades estão:
-
alterações de fluxo;
-
perfusão tecidual;
-
avaliação vascular de massas;
-
acompanhamento de determinadas intervenções;
-
estudo de estruturas vasculares complexas.
CEUS versus ultrassonografia convencional
| Característica |
Ultrassonografia convencional |
CEUS |
| Anatomia |
Excelente |
Excelente |
| Ecogenicidade |
Excelente |
Excelente |
| Vascularização |
Limitada em algumas situações |
Avaliação dinâmica |
| Perfusão |
Indireta |
Em tempo real |
| Microcirculação |
Limitada |
Melhor avaliação |
| Wash-in/wash-out |
Não |
Sim |
| Radiação ionizante |
Não |
Não |
| Avaliação dinâmica |
Sim |
Sim, com informação vascular adicional |
A grande vantagem da CEUS é, portanto, acrescentar informação funcional de perfusão ao exame anatômico convencional.
CEUS versus Tomografia e Ressonância
A ultrassonografia contrastada não deve ser vista simplesmente como concorrente da tomografia ou da ressonância magnética.
Na realidade, as técnicas podem ser complementares.
Ultrassonografia com contraste
Vantagens:
-
tempo real;
-
ausência de radiação;
-
exame dinâmico;
-
possibilidade de avaliação à beira do paciente;
-
excelente resolução temporal;
-
possibilidade de repetir o exame;
-
avaliação da perfusão.
Tomografia computadorizada
É particularmente importante para:
-
avaliação anatômica ampla;
-
pulmões;
-
estruturas ósseas;
-
estadiamento;
-
relações anatômicas complexas;
-
avaliação vascular por angiotomografia.
Ressonância magnética
Apresenta grande importância em:
-
sistema nervoso central;
-
medula espinhal;
-
tecidos moles;
-
determinadas avaliações musculoesqueléticas;
-
caracterização avançada de tecidos.
A escolha deve ser baseada na pergunta clínica que se deseja responder.
Segurança
A CEUS apresenta perfil de segurança considerado muito favorável.
Em um estudo multicêntrico citado pela NC State University, reações adversas foram muito raras em cães e não foram observadas nos gatos avaliados; nos cães, as reações observadas foram leves e autolimitadas.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 também encontrou excelente perfil geral de segurança dos agentes de contraste ultrassonográfico.
Entretanto, nenhum agente de contraste é absolutamente isento de risco. O paciente deve ser avaliado individualmente, considerando histórico de hipersensibilidade e as características do agente utilizado.
Uma vantagem importante: não utilizar radiação
A CEUS utiliza ondas de ultrassom e não radiação ionizante.
Essa característica é particularmente interessante em:
-
pacientes jovens;
-
pacientes submetidos a avaliações seriadas;
-
acompanhamento de lesões;
-
determinados pacientes críticos;
-
situações nas quais se busca reduzir a exposição à radiação.
Contraste intravenoso e contraste intracavitário
É importante diferenciar duas aplicações.
Contraste intravenoso
As microbolhas são administradas pela circulação sanguínea para estudar perfusão e vascularização.
É a modalidade mais conhecida quando se fala em CEUS.
Contraste intracavitário
Existem também aplicações em que o contraste é introduzido em uma cavidade ou estrutura específica, permitindo avaliar seu lúmen e determinadas alterações anatômicas.
Um estudo publicado em 2024 descreveu aplicações intraluminais de ultrassonografia contrastada em cães e gatos, incluindo avaliação de diferentes sistemas.
Essa área ainda representa um campo de desenvolvimento importante na medicina veterinária.
Como é realizado o exame?
De maneira geral:
Ultrassonografia convencional → identificação da lesão → administração do contraste → avaliação dinâmica → registro das fases de realce → análise do wash-out.
O paciente é posicionado para permitir a melhor janela acústica possível.
Inicialmente realiza-se a avaliação convencional.
Depois, o agente de contraste é administrado conforme o protocolo específico do produto, espécie, órgão e equipamento.
O exame deve ser realizado em equipamento com modo específico para contraste, utilizando parâmetros adequados para preservar e detectar as microbolhas.
As recomendações atuais destacam que a aquisição deve ser planejada cuidadosamente, pois a exposição contínua ao ultrassom pode destruir microbolhas e prejudicar a avaliação do wash-out.
Limitações da técnica
Apesar das vantagens, a CEUS apresenta limitações.
Entre elas:
-
necessidade de equipamento compatível;
-
necessidade de treinamento específico;
-
dependência da janela acústica;
-
movimentação do paciente;
-
necessidade de padronização dos protocolos;
-
disponibilidade variável dos agentes;
-
experiência do ultrassonografista;
-
limitações na interpretação de determinados padrões.
Além disso, a literatura veterinária ainda é menor que a literatura disponível na medicina humana, especialmente para algumas aplicações e espécies.
O futuro da ultrassonografia contrastada na veterinária
A evolução da CEUS provavelmente será acompanhada pelo desenvolvimento de:
-
análise quantitativa da perfusão;
-
softwares de avaliação temporal;
-
inteligência artificial;
-
elastografia associada;
-
avaliação de microvasculatura;
-
agentes direcionados;
-
microbolhas de novas gerações;
-
aplicações intervencionistas.
As pesquisas mais recentes também exploram microbolhas e nanobolhas para aplicações cada vez mais específicas, embora muitas dessas tecnologias ainda estejam em desenvolvimento e não façam parte da rotina veterinária.
O papel do RXVet Laudos
O RXVet Laudos atua na área de diagnóstico por imagem veterinário, incluindo laudos de ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética.
Na utilização de métodos avançados de imagem, a interpretação especializada é fundamental para correlacionar os achados morfológicos e funcionais com a suspeita clínica.
O papel do Hospital Veterinário Florianópolis
O Hospital Veterinário Florianópolis reúne atendimento especializado e diagnóstico por imagem avançado, incluindo tomografia e ressonância magnética, dentro de uma estrutura hospitalar de alta complexidade.
A integração entre ultrassonografia, tomografia, ressonância, laboratório e avaliação clínica permite selecionar o método mais adequado para cada paciente.
LAVEF e diagnóstico integrado
O LAVEF – Laboratório Veterinário Florianópolis oferece suporte diagnóstico laboratorial, incluindo análises clínicas, biologia molecular e outros exames complementares.
Na rotina clínica, a CEUS deve ser interpretada dentro de um contexto diagnóstico mais amplo, correlacionando imagem com hematologia, bioquímica, citologia, histopatologia e demais exames quando indicados.
ScientiaLabs e inovação diagnóstica
A Scientia Labs atua com análises clínicas humanas e veterinárias, consultoria laboratorial e formação técnica, contribuindo para a integração entre diagnóstico, qualidade analítica e educação continuada.
A evolução de técnicas como a CEUS depende justamente da integração entre diagnóstico por imagem, laboratório, pesquisa e formação profissional.
O papel do InstitutoVet
O InstitutoVet tem como objetivo promover atualização científica e formação continuada para médicos-veterinários e estudantes.
A ultrassonografia contrastada representa um excelente exemplo de como novas tecnologias de diagnóstico por imagem estão modificando a prática clínica e exigindo atualização permanente dos profissionais.
O portal de artigos e notícias do InstitutoVet reúne conteúdos técnicos voltados à atualização em medicina veterinária.
Conclusão
A ultrassonografia com contraste por microbolhas representa uma importante evolução do diagnóstico por imagem veterinário. Ao acrescentar informações sobre vascularização e perfusão à avaliação morfológica convencional, a CEUS pode melhorar a caracterização de determinadas lesões e fornecer informações em tempo real que não estão disponíveis na ultrassonografia convencional.
Suas principais aplicações em cães e gatos incluem a investigação de lesões hepáticas e esplênicas, alterações renais, perfusão intestinal, massas e alterações vasculares. Entretanto, a técnica deve ser utilizada de forma criteriosa, com protocolos adequados, equipamento compatível e interpretação realizada por profissional capacitado.
A tendência é que a CEUS ocupe espaço cada vez maior na medicina veterinária, especialmente à medida que aumentam a disponibilidade dos equipamentos, a experiência dos profissionais e a produção de evidências específicas para cães e gatos.
A integração entre InstitutoVet, Hospital Veterinário Florianópolis, RXVet Laudos, LAVEF e Scientia Labs reforça a importância de uma abordagem multidisciplinar, na qual diagnóstico por imagem, análises laboratoriais, pesquisa e educação continuada trabalham de forma integrada.
Referências selecionadas
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Dietrich CF, et al. Guidelines and Good Clinical Practice Recommendations for Contrast Enhanced Ultrasound (CEUS) in the Liver – Update 2020. Ultrasound in Medicine & Biology. 2020.
-
AIUM Practice Parameter for the Performance of Contrast-Enhanced Ultrasound – 2024. Journal of Ultrasound in Medicine.
-
Takeda CSI, Carvalho CF, Chammas MC. Princípios físicos da ultrassonografia com contraste por microbolhas – revisão de literatura. Clínica Veterinária. 2012.
-
Applications of Contrast-Enhanced Ultrasound in Splenic Studies of Dogs and Cats. Revisão. 2022.
-
B-mode and contrast-enhanced ultrasonography for intestinal assessment in dogs: A review. 2025.
-
Chhoey S, et al. Intraluminal Contrast-Enhanced Ultrasonography Application in Dogs and Cats. Veterinary Sciences. 2024;11(9):443.
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Type, severity, frequency and management of adverse reactions associated with ultrasound contrast agents: a systematic review and meta-analysis. 2026.