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  • Por Prof. Mateus Ryscheski / Hospital Veterinário Florianópolis

Ultrassonografia com Contraste em Cães e Gatos: Aplicações, Indicações e Novas Possibilidades no Diagnóstico Veterinário

A ultrassonografia contrastada (Contrast-Enhanced Ultrasound – CEUS) é uma modalidade avançada de diagnóstico por imagem que utiliza agentes de contraste, geralmente constituídos por microbolhas, para aumentar a avaliação da perfusão e da vascularização dos tecidos em tempo real. Na medicina veterinária, a técnica vem ganhando espaço principalmente na avaliação de lesões focais hepáticas e esplênicas, rins, intestino, próstata, vasos sanguíneos e processos neoplásicos. Diferentemente dos contrastes utilizados na tomografia e na ressonância magnética, as microbolhas permanecem predominantemente no compartimento intravascular e não dependem da excreção renal ou biliar. Neste artigo, o InstitutoVet apresenta os princípios, principais indicações, vantagens, limitações e perspectivas da ultrassonografia com contraste em cães e gatos, destacando a importância da integração entre diagnóstico por imagem, laboratório, medicina hospitalar e educação continuada.

O que é a ultrassonografia com contraste?

A ultrassonografia convencional permite avaliar principalmente a morfologia e a ecogenicidade dos órgãos.

Entretanto, uma lesão pode apresentar aparência semelhante a outra na ultrassonografia modo B e possuir comportamento vascular completamente diferente.

É nesse ponto que entra a CEUS.

A técnica utiliza microbolhas preenchidas por gás e envoltas por uma cápsula estabilizadora. Quando submetidas ao ultrassom, essas microbolhas produzem sinais acústicos intensos que podem ser detectados por equipamentos com tecnologia específica para contraste.

O resultado é a possibilidade de observar como o sangue chega, se distribui e desaparece de uma determinada região em tempo real.

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Por que utilizar contraste no ultrassom?

Na ultrassonografia convencional, muitas lesões podem ser identificadas, mas sua caracterização pode permanecer limitada.

A CEUS acrescenta uma dimensão funcional ao exame.

Em vez de avaliar somente:

"Como é essa lesão?"

passamos a investigar:

"Como essa lesão é perfundida?"

Isso permite estudar:

  • vascularização;
  • perfusão arterial;
  • perfusão venosa;
  • distribuição do fluxo;
  • áreas de necrose;
  • padrão de realce;
  • velocidade de entrada do contraste;
  • velocidade de eliminação do contraste.

Essa avaliação dinâmica pode fornecer informações adicionais importantes para a caracterização de determinadas lesões.


Como funcionam as microbolhas?

As microbolhas são agentes intravasculares.

Após a administração, elas circulam pela corrente sanguínea e podem ser acompanhadas durante as diferentes fases de perfusão.

De maneira simplificada, podemos observar:

1. Fase arterial

O contraste chega inicialmente pelas artérias que irrigam o órgão ou a lesão.

2. Fase portal ou venosa

Dependendo do órgão estudado, ocorre a distribuição progressiva do contraste pelo sistema vascular.

3. Fase tardia

O contraste começa a desaparecer da circulação, permitindo observar o chamado wash-out.

A avaliação do comportamento durante o wash-in e wash-out constitui uma das principais informações funcionais fornecidas pela CEUS.


Principais indicações em cães e gatos

1. Lesões hepáticas

Uma das aplicações mais estudadas da CEUS é a avaliação do fígado.

Pode ser utilizada para investigar:

  • nódulos;
  • massas hepáticas;
  • hiperplasia nodular;
  • adenomas;
  • carcinomas;
  • metástases;
  • lesões indeterminadas;
  • alterações vasculares.

Quando a ultrassonografia convencional identifica uma lesão focal cuja natureza permanece incerta, a avaliação dinâmica da vascularização pode fornecer informações adicionais importantes. As recomendações internacionais para CEUS hepática enfatizam a análise sistemática das fases de realce e do wash-out.


2. Avaliação do baço

A ultrassonografia contrastada também possui aplicações importantes na avaliação esplênica.

Pode auxiliar na caracterização de:

  • nódulos esplênicos;
  • massas;
  • áreas de infarto;
  • hematomas;
  • alterações vasculares;
  • processos neoplásicos.

Estudos em cães e gatos demonstram que a CEUS permite avaliar a arquitetura vascular esplênica e o comportamento perfusional das lesões em tempo real.

Isso é particularmente interessante em pacientes nos quais a ultrassonografia convencional demonstra uma alteração focal, mas não permite estabelecer uma caracterização suficientemente segura.


3. Rins

A CEUS pode ser utilizada para estudar:

  • perfusão renal;
  • lesões focais;
  • alterações vasculares;
  • diferenciação entre estruturas normais e massas;
  • avaliação de determinadas alterações perfusionais.

Como as microbolhas permanecem no espaço intravascular e não são eliminadas pelos rins da mesma maneira que contrastes iodados, a técnica possui características farmacocinéticas particulares. As recomendações técnicas atuais inclusive descrevem a possibilidade de utilização de doses menores em exames renais devido à elevada vascularização do órgão.


4. Intestino

Uma das aplicações mais interessantes e emergentes é a avaliação da perfusão intestinal.

A CEUS pode fornecer informações sobre:

  • perfusão da parede intestinal;
  • vascularização;
  • inflamação;
  • alterações isquêmicas;
  • comprometimento vascular;
  • viabilidade tecidual.

Uma revisão recente sobre CEUS intestinal em cães destaca o potencial da técnica para avaliação da perfusão intestinal, embora ainda existam diferenças entre protocolos e necessidade de maior padronização veterinária.


5. Avaliação de tumores

A vascularização tumoral pode ser diferente da vascularização dos tecidos normais.

A CEUS pode demonstrar:

  • hiperperfusão;
  • hipoperfusão;
  • vascularização heterogênea;
  • áreas necróticas;
  • padrões de entrada do contraste;
  • padrões de wash-out.

Isso pode auxiliar na caracterização de determinadas massas e na seleção de regiões mais representativas para procedimentos intervencionistas.

É importante destacar: a CEUS não deve ser interpretada como substituta automática da citologia ou histopatologia. O diagnóstico definitivo de muitas neoplasias continua dependendo da avaliação celular e/ou histológica.


6. Avaliação vascular

A CEUS também pode ser empregada para investigar estruturas vasculares e alterações relacionadas à perfusão.

Entre as possibilidades estão:

  • alterações de fluxo;
  • perfusão tecidual;
  • avaliação vascular de massas;
  • acompanhamento de determinadas intervenções;
  • estudo de estruturas vasculares complexas.

CEUS versus ultrassonografia convencional

Característica Ultrassonografia convencional CEUS
Anatomia Excelente Excelente
Ecogenicidade Excelente Excelente
Vascularização Limitada em algumas situações Avaliação dinâmica
Perfusão Indireta Em tempo real
Microcirculação Limitada Melhor avaliação
Wash-in/wash-out Não Sim
Radiação ionizante Não Não
Avaliação dinâmica Sim Sim, com informação vascular adicional

A grande vantagem da CEUS é, portanto, acrescentar informação funcional de perfusão ao exame anatômico convencional.


CEUS versus Tomografia e Ressonância

A ultrassonografia contrastada não deve ser vista simplesmente como concorrente da tomografia ou da ressonância magnética.

Na realidade, as técnicas podem ser complementares.

Ultrassonografia com contraste

Vantagens:

  • tempo real;
  • ausência de radiação;
  • exame dinâmico;
  • possibilidade de avaliação à beira do paciente;
  • excelente resolução temporal;
  • possibilidade de repetir o exame;
  • avaliação da perfusão.

Tomografia computadorizada

É particularmente importante para:

  • avaliação anatômica ampla;
  • pulmões;
  • estruturas ósseas;
  • estadiamento;
  • relações anatômicas complexas;
  • avaliação vascular por angiotomografia.

Ressonância magnética

Apresenta grande importância em:

  • sistema nervoso central;
  • medula espinhal;
  • tecidos moles;
  • determinadas avaliações musculoesqueléticas;
  • caracterização avançada de tecidos.

A escolha deve ser baseada na pergunta clínica que se deseja responder.


Segurança

A CEUS apresenta perfil de segurança considerado muito favorável.

Em um estudo multicêntrico citado pela NC State University, reações adversas foram muito raras em cães e não foram observadas nos gatos avaliados; nos cães, as reações observadas foram leves e autolimitadas.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 também encontrou excelente perfil geral de segurança dos agentes de contraste ultrassonográfico.

Entretanto, nenhum agente de contraste é absolutamente isento de risco. O paciente deve ser avaliado individualmente, considerando histórico de hipersensibilidade e as características do agente utilizado.


Uma vantagem importante: não utilizar radiação

A CEUS utiliza ondas de ultrassom e não radiação ionizante.

Essa característica é particularmente interessante em:

  • pacientes jovens;
  • pacientes submetidos a avaliações seriadas;
  • acompanhamento de lesões;
  • determinados pacientes críticos;
  • situações nas quais se busca reduzir a exposição à radiação.

Contraste intravenoso e contraste intracavitário

É importante diferenciar duas aplicações.

Contraste intravenoso

As microbolhas são administradas pela circulação sanguínea para estudar perfusão e vascularização.

É a modalidade mais conhecida quando se fala em CEUS.

Contraste intracavitário

Existem também aplicações em que o contraste é introduzido em uma cavidade ou estrutura específica, permitindo avaliar seu lúmen e determinadas alterações anatômicas.

Um estudo publicado em 2024 descreveu aplicações intraluminais de ultrassonografia contrastada em cães e gatos, incluindo avaliação de diferentes sistemas.

Essa área ainda representa um campo de desenvolvimento importante na medicina veterinária.


Como é realizado o exame?

De maneira geral:

Ultrassonografia convencional → identificação da lesão → administração do contraste → avaliação dinâmica → registro das fases de realce → análise do wash-out.

O paciente é posicionado para permitir a melhor janela acústica possível.

Inicialmente realiza-se a avaliação convencional.

Depois, o agente de contraste é administrado conforme o protocolo específico do produto, espécie, órgão e equipamento.

O exame deve ser realizado em equipamento com modo específico para contraste, utilizando parâmetros adequados para preservar e detectar as microbolhas.

As recomendações atuais destacam que a aquisição deve ser planejada cuidadosamente, pois a exposição contínua ao ultrassom pode destruir microbolhas e prejudicar a avaliação do wash-out.


Limitações da técnica

Apesar das vantagens, a CEUS apresenta limitações.

Entre elas:

  • necessidade de equipamento compatível;
  • necessidade de treinamento específico;
  • dependência da janela acústica;
  • movimentação do paciente;
  • necessidade de padronização dos protocolos;
  • disponibilidade variável dos agentes;
  • experiência do ultrassonografista;
  • limitações na interpretação de determinados padrões.

Além disso, a literatura veterinária ainda é menor que a literatura disponível na medicina humana, especialmente para algumas aplicações e espécies.


O futuro da ultrassonografia contrastada na veterinária

A evolução da CEUS provavelmente será acompanhada pelo desenvolvimento de:

  • análise quantitativa da perfusão;
  • softwares de avaliação temporal;
  • inteligência artificial;
  • elastografia associada;
  • avaliação de microvasculatura;
  • agentes direcionados;
  • microbolhas de novas gerações;
  • aplicações intervencionistas.

As pesquisas mais recentes também exploram microbolhas e nanobolhas para aplicações cada vez mais específicas, embora muitas dessas tecnologias ainda estejam em desenvolvimento e não façam parte da rotina veterinária.


O papel do RXVet Laudos

O RXVet Laudos atua na área de diagnóstico por imagem veterinário, incluindo laudos de ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética.

Na utilização de métodos avançados de imagem, a interpretação especializada é fundamental para correlacionar os achados morfológicos e funcionais com a suspeita clínica.


O papel do Hospital Veterinário Florianópolis

O Hospital Veterinário Florianópolis reúne atendimento especializado e diagnóstico por imagem avançado, incluindo tomografia e ressonância magnética, dentro de uma estrutura hospitalar de alta complexidade.

A integração entre ultrassonografia, tomografia, ressonância, laboratório e avaliação clínica permite selecionar o método mais adequado para cada paciente.


LAVEF e diagnóstico integrado

O LAVEF – Laboratório Veterinário Florianópolis oferece suporte diagnóstico laboratorial, incluindo análises clínicas, biologia molecular e outros exames complementares.

Na rotina clínica, a CEUS deve ser interpretada dentro de um contexto diagnóstico mais amplo, correlacionando imagem com hematologia, bioquímica, citologia, histopatologia e demais exames quando indicados.


ScientiaLabs e inovação diagnóstica

A Scientia Labs atua com análises clínicas humanas e veterinárias, consultoria laboratorial e formação técnica, contribuindo para a integração entre diagnóstico, qualidade analítica e educação continuada.

A evolução de técnicas como a CEUS depende justamente da integração entre diagnóstico por imagem, laboratório, pesquisa e formação profissional.


O papel do InstitutoVet

O InstitutoVet tem como objetivo promover atualização científica e formação continuada para médicos-veterinários e estudantes.

A ultrassonografia contrastada representa um excelente exemplo de como novas tecnologias de diagnóstico por imagem estão modificando a prática clínica e exigindo atualização permanente dos profissionais.

O portal de artigos e notícias do InstitutoVet reúne conteúdos técnicos voltados à atualização em medicina veterinária.


Conclusão

A ultrassonografia com contraste por microbolhas representa uma importante evolução do diagnóstico por imagem veterinário. Ao acrescentar informações sobre vascularização e perfusão à avaliação morfológica convencional, a CEUS pode melhorar a caracterização de determinadas lesões e fornecer informações em tempo real que não estão disponíveis na ultrassonografia convencional.

Suas principais aplicações em cães e gatos incluem a investigação de lesões hepáticas e esplênicas, alterações renais, perfusão intestinal, massas e alterações vasculares. Entretanto, a técnica deve ser utilizada de forma criteriosa, com protocolos adequados, equipamento compatível e interpretação realizada por profissional capacitado.

A tendência é que a CEUS ocupe espaço cada vez maior na medicina veterinária, especialmente à medida que aumentam a disponibilidade dos equipamentos, a experiência dos profissionais e a produção de evidências específicas para cães e gatos.

A integração entre InstitutoVet, Hospital Veterinário Florianópolis, RXVet Laudos, LAVEF e Scientia Labs reforça a importância de uma abordagem multidisciplinar, na qual diagnóstico por imagem, análises laboratoriais, pesquisa e educação continuada trabalham de forma integrada.


Referências selecionadas

  1. Dietrich CF, et al. Guidelines and Good Clinical Practice Recommendations for Contrast Enhanced Ultrasound (CEUS) in the Liver – Update 2020. Ultrasound in Medicine & Biology. 2020.
  2. AIUM Practice Parameter for the Performance of Contrast-Enhanced Ultrasound – 2024. Journal of Ultrasound in Medicine.
  3. Takeda CSI, Carvalho CF, Chammas MC. Princípios físicos da ultrassonografia com contraste por microbolhas – revisão de literatura. Clínica Veterinária. 2012.
  4. Applications of Contrast-Enhanced Ultrasound in Splenic Studies of Dogs and Cats. Revisão. 2022.
  5. B-mode and contrast-enhanced ultrasonography for intestinal assessment in dogs: A review. 2025.
  6. Chhoey S, et al. Intraluminal Contrast-Enhanced Ultrasonography Application in Dogs and Cats. Veterinary Sciences. 2024;11(9):443.
  7. Type, severity, frequency and management of adverse reactions associated with ultrasound contrast agents: a systematic review and meta-analysis. 2026.