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  • Por Prof. Ewerton Cardoso / Hospital Veterinário Florianopolis - Rxvet Laudos - Institutovet

Síndrome Compartimental

Síndrome Compartimental em Cães e Gatos: Fisiopatologia, Diagnóstico e Tratamento de uma Emergência Cirúrgica A síndrome compartimental é uma condição potencialmente grave caracterizada pelo aumento da pressão dentro de um compartimento anatômico delimitado por fáscia, comprometendo a perfusão capilar e podendo provocar isquemia, necrose muscular, lesão nervosa e perda da função do membro. Embora seja considerada rara na medicina veterinária, casos descritos em cães demonstram que pode ocorrer após trauma, hemorragia intramuscular, lesões por esmagamento, reperfusão e até mesmo como complicação de neoplasias. Também existem relatos envolvendo os músculos da mastigação. PubMed O diagnóstico precoce é fundamental. A avaliação clínica deve ser associada, quando necessário, à mensuração da pressão intracompartimental e aos exames de imagem. Quando a síndrome está estabelecida, a descompressão cirúrgica por fasciotomia constitui o tratamento fundamental para restaurar a perfusão e impedir a progressão da lesão isquêmica

Síndrome Compartimental em Cães e Gatos: Fisiopatologia, Diagnóstico e Tratamento de uma Emergência Cirúrgica

Autor: Ewerton Cardoso

O que é a síndrome compartimental?

A síndrome compartimental ocorre quando a pressão dentro de um espaço anatômico fechado aumenta a ponto de comprometer a circulação dos tecidos contidos naquele compartimento.

Em termos simplificados:

aumento do volume ou pressão → compressão vascular → redução da perfusão → isquemia → edema adicional → aumento ainda maior da pressão.

Forma-se, portanto, um ciclo de retroalimentação.

A fáscia apresenta baixa capacidade de expansão. Assim, quando ocorre edema, hemorragia ou aumento significativo do volume muscular dentro desse espaço, a pressão intracompartimental pode aumentar rapidamente.

Inicialmente, o retorno venoso é prejudicado. Com a progressão, a pressão capilar também é comprometida, levando à redução do fluxo sanguíneo arterial efetivo e à isquemia muscular e nervosa.


Por que a síndrome compartimental é uma emergência?

O problema não é simplesmente o edema.

O principal risco é a perda progressiva da perfusão tecidual.

A persistência da isquemia pode provocar:

  • lesão muscular;
  • necrose;
  • lesão de nervos periféricos;
  • déficit motor;
  • dor intensa;
  • rabdomiólise;
  • mioglobinúria;
  • alterações eletrolíticas;
  • insuficiência renal;
  • perda funcional do membro.

A literatura sobre síndrome compartimental enfatiza que atrasos no reconhecimento e na descompressão podem resultar em lesões irreversíveis.


Quais são as principais causas?

A síndrome compartimental pode ocorrer por diferentes mecanismos.

Trauma

É uma das causas mais importantes.

Pode ocorrer após:

  • esmagamento;
  • acidentes automobilísticos;
  • fraturas;
  • lesões musculares graves;
  • traumatismos de alta energia;
  • mordidas e traumas musculares extensos.

O trauma pode produzir edema e hemorragia dentro do compartimento, elevando rapidamente a pressão.


Hemorragia intramuscular

Sangramentos dentro de um compartimento fechado podem provocar aumento significativo da pressão.

Isso pode ocorrer após:

  • trauma vascular;
  • coagulopatias;
  • anticoagulação;
  • ruptura vascular;
  • tumores hemorrágicos.

Um exemplo particularmente relevante na medicina veterinária foi descrito em um cão com hemangiossarcoma intramuscular da região femoral. O sangramento associado ao tumor provocou aumento da pressão intracompartimental, sendo necessária fasciotomia e remoção da massa.

Síndrome compartimental por reperfusão

Outro mecanismo importante ocorre após um período de isquemia.

Quando o fluxo sanguíneo retorna ao tecido, pode ocorrer:

isquemia → reperfusão → edema → aumento da pressão → nova redução da perfusão.

A lesão de reperfusão pode aumentar a permeabilidade vascular e produzir edema importante.

Esse mecanismo é conhecido na medicina de emergência e deve ser considerado em pacientes submetidos à restauração do fluxo sanguíneo após períodos prolongados de isquemia.


Síndrome compartimental e cirurgia

Determinados procedimentos ou condições perioperatórias podem favorecer aumento da pressão em compartimentos musculares.

Devem ser considerados:

  • posicionamento prolongado;
  • compressão externa;
  • bandagens excessivamente apertadas;
  • imobilizações;
  • torniquetes;
  • reperfusão após procedimentos vasculares.

Por isso, pacientes submetidos a procedimentos prolongados ou com comprometimento vascular devem ser monitorados cuidadosamente.


Síndrome compartimental dos músculos da mastigação

Uma apresentação particularmente interessante em cães envolve os músculos:

  • temporal;
  • masseter;
  • pterigoideo.

Embora rara, a síndrome compartimental pode ocorrer nessa região.

Um caso publicado descreveu um cão da raça Pastor-belga Malinois, utilizado em trabalho policial, que desenvolveu edema facial intenso, incapacidade de fechar a boca e cegueira aguda após treinamento de mordida.

A ressonância magnética demonstrou aumento e alterações de sinal nos músculos da mastigação, e a mensuração da pressão intramuscular confirmou o comprometimento compartimental. Foram realizadas fasciotomias descompressivas bilaterais dos músculos temporal e masseter, com resolução rápida do edema e recuperação da movimentação mandibular. A alteração visual, entretanto, não foi revertida. Wiley Online Library

Esse caso demonstra que a síndrome compartimental não deve ser considerada exclusivamente uma doença dos membros.


E nos gatos?

A síndrome compartimental é considerada rara em cães e gatos, e a literatura veterinária disponível é muito menor do que a existente na medicina humana.

A revisão veterinária publicada por Nielsen e Whelan destaca justamente a escassez de estudos clínicos primários em medicina veterinária.

Portanto, em gatos, a suspeita deve ser baseada principalmente no contexto clínico: trauma grave, edema rapidamente progressivo, comprometimento vascular, hemorragia ou outra situação capaz de elevar a pressão dentro de um compartimento.


Sinais clínicos

Os sinais dependem da localização e da evolução.

Podem incluir:

  • dor intensa;
  • edema;
  • aumento da tensão muscular;
  • aumento do volume do membro;
  • dificuldade de movimentação;
  • claudicação;
  • déficit neurológico;
  • alteração da sensibilidade;
  • fraqueza;
  • extremidade fria;
  • alteração da coloração;
  • diminuição ou ausência de pulso em estágios avançados.

É importante lembrar que a ausência de alterações vasculares periféricas importantes não exclui a síndrome em fases iniciais.


A dor é um sinal importante

A dor desproporcional ao exame físico é um dos sinais clássicos descritos na síndrome compartimental.

Entretanto, na medicina veterinária sua interpretação pode ser dificultada porque:

  • o paciente não consegue relatar a intensidade da dor;
  • sedação pode mascarar sinais;
  • trauma associado pode produzir dor simultaneamente;
  • pacientes críticos podem apresentar alterações de consciência.

Por isso, a evolução do edema, tensão muscular, função neurológica e perfusão deve ser acompanhada repetidamente.


Diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico e fisiopatológico, complementado por métodos objetivos quando necessário.

A avaliação deve considerar:

1. História clínica

Investigar:

  • trauma;
  • tempo de evolução;
  • cirurgia recente;
  • bandagens ou imobilizações;
  • comprometimento vascular;
  • reperfusão;
  • coagulopatias;
  • neoplasias;
  • exercício extremo;
  • compressão prolongada.

2. Exame físico

Avaliar:

  • dor;
  • edema;
  • temperatura;
  • consistência muscular;
  • perfusão;
  • pulsos;
  • função motora;
  • sensibilidade.

3. Pressão intracompartimental

Quando há dúvida diagnóstica ou quando o paciente não permite avaliação clínica confiável, a mensuração da pressão intracompartimental pode ser extremamente útil. 


Pressão intracompartimental

A pressão absoluta não deve ser interpretada isoladamente.

Um conceito importante é a pressão de perfusão do compartimento, frequentemente expressa como:

ΔP = pressão arterial diastólica − pressão intracompartimental

A literatura experimental em cães demonstrou que a relação entre pressão compartimental e pressão arterial é mais relevante para a ocorrência de isquemia do que simplesmente utilizar um único valor absoluto de pressão. Um estudo experimental encontrou dano isquêmico quando a pressão tecidual se aproximava da pressão arterial diastólica.

Na literatura humana, valores de ΔP em torno de 30 mmHg são frequentemente utilizados como referência para decisão em conjunto com o quadro clínico, mas não devem ser simplesmente transferidos para cães e gatos como um valor universal, devido à limitada evidência veterinária.


Exames laboratoriais

O laboratório pode fornecer informações importantes sobre a gravidade da lesão muscular.

O LAVEF pode auxiliar na avaliação por meio de:

  • hemograma;
  • bioquímica sérica;
  • creatinina;
  • ureia;
  • eletrólitos;
  • CK;
  • avaliação ácido-base;
  • urinálise.

A creatina quinase (CK) pode aumentar significativamente em decorrência de lesão muscular.

A presença de mioglobina na urina pode ocorrer em casos de rabdomiólise significativa.


Ultrassonografia

A ultrassonografia pode auxiliar na avaliação dos tecidos moles.

Pode demonstrar:

  • aumento do volume muscular;
  • edema;
  • alterações da ecogenicidade;
  • hematomas;
  • coleções líquidas;
  • massas;
  • alterações vasculares.

Em casos associados a neoplasias ou hemorragias, pode ajudar a localizar a causa do aumento de pressão.


Radiografia

A radiografia possui papel principalmente na investigação de causas associadas.

Pode identificar:

  • fraturas;
  • alterações ósseas;
  • corpos estranhos;
  • mineralizações;
  • massas;
  • alterações traumáticas.

Não é, entretanto, o principal exame para confirmar a síndrome compartimental.


Tomografia Computadorizada

A tomografia pode ser extremamente útil quando é necessário investigar a origem do aumento de volume ou a extensão de uma lesão.

Pode demonstrar:

  • edema muscular;
  • hemorragia;
  • massas;
  • fraturas;
  • alterações vasculares;
  • extensão anatômica da lesão.

Ressonância Magnética

A ressonância magnética apresenta especial interesse na avaliação da musculatura.

Pode demonstrar:

  • edema muscular;
  • alterações de sinal;
  • necrose;
  • hemorragia;
  • extensão da lesão;
  • envolvimento de músculos adjacentes.

No caso publicado de síndrome compartimental dos músculos da mastigação em um cão, a RM identificou edema e alterações de sinal difusas, mais intensas nos músculos mastigatórios, auxiliando na investigação antes da confirmação por pressão intramuscular. Wiley Online Library

O RXVet Laudos pode contribuir na interpretação dos exames de diagnóstico por imagem, especialmente quando é necessário correlacionar alterações musculares, vasculares e anatômicas.


Tratamento

A síndrome compartimental estabelecida deve ser considerada uma emergência cirúrgica.

O objetivo é:

reduzir a pressão → restaurar a perfusão → preservar músculo e nervos.


Fasciotomia

A fasciotomia descompressiva consiste na abertura da fáscia que envolve o compartimento comprometido, permitindo que o tecido edemaciado se expanda e reduzindo a pressão intracompartimental.

Quando indicada, deve ser realizada rapidamente.

A literatura considera a descompressão precoce o principal determinante modificável do resultado em síndrome compartimental aguda. PubMed


E depois da fasciotomia?

O tratamento não termina com a descompressão.

O paciente precisa ser monitorado para:

  • perfusão;
  • função renal;
  • eletrólitos;
  • CK;
  • evolução da necrose;
  • infecção;
  • necessidade de desbridamento;
  • complicações da ferida;
  • nova elevação da pressão.

Em casos graves, tecidos inviáveis podem necessitar de desbridamento cirúrgico.


Rabdomiólise e síndrome compartimental

A destruição muscular pode liberar grandes quantidades de:

  • mioglobina;
  • potássio;
  • fosfato;
  • enzimas musculares.

A mioglobina pode contribuir para lesão renal, enquanto a liberação de potássio pode favorecer alterações cardíacas potencialmente graves.

Por isso, pacientes com síndrome compartimental extensa devem ser tratados também como pacientes de risco para rabdomiólise e complicações sistêmicas.


Síndrome compartimental secundária a tumor

Um ponto particularmente importante para a oncologia veterinária é que uma massa muscular pode provocar síndrome compartimental.

O hemangiossarcoma é um exemplo documentado.

Em um cão com hemangiossarcoma intramuscular femoral, a hemorragia associada ao tumor provocou elevação da pressão dentro do compartimento. A fasciotomia e a excisão da massa resolveram inicialmente os sinais clínicos.

Portanto:

edema muscular agudo + dor intensa + massa intramuscular = considerar síndrome compartimental.


Como diferenciar de outras doenças?

A síndrome compartimental pode ser confundida com:

  • celulite;
  • abscesso;
  • miosite;
  • hematoma;
  • trombose;
  • lesão muscular;
  • síndrome de reperfusão;
  • neoplasia;
  • edema pós-traumático;
  • fasciíte;
  • rabdomiólise sem síndrome compartimental.

A velocidade de progressão e a relação entre edema, dor, função e perfusão são fundamentais para o raciocínio diagnóstico.


Um conceito fundamental para o médico-veterinário

A síndrome compartimental não deve ser diagnosticada apenas quando o membro está frio, sem pulso e com alterações neurológicas graves.

Esses podem ser sinais tardios.

A ausência de pulso pode representar comprometimento vascular avançado, e a literatura ressalta que a perda de pulso não deve ser aguardada para estabelecer a necessidade de descompressão.

O objetivo é reconhecer a síndrome antes da necrose irreversível.


O papel do Hospital Veterinário Florianópolis

O Hospital Veterinário Florianópolis (HVF) possui estrutura para atendimento de pacientes de alta complexidade, incluindo emergência, cirurgia, diagnóstico por imagem e suporte intensivo.

Em um paciente com suspeita de síndrome compartimental, a integração entre emergência, cirurgia, diagnóstico por imagem e laboratório é fundamental para reduzir o tempo entre a identificação do problema e a intervenção.


RXVet Laudos

O RXVet Laudos pode contribuir para a investigação das causas e consequências da síndrome compartimental por meio da interpretação de exames como:

  • radiografia;
  • ultrassonografia;
  • tomografia computadorizada;
  • ressonância magnética.

A imagem é particularmente importante quando existe suspeita de hemorragia, neoplasia, trauma ou extensa lesão muscular.


LAVEF

O LAVEF participa do diagnóstico integrado por meio da avaliação laboratorial.

Exames como CK, função renal, eletrólitos, hemograma e urinálise podem auxiliar na identificação da extensão da lesão muscular e no monitoramento das complicações sistêmicas.


ScientiaLabs

A ScientiaLabs contribui para a integração entre diagnóstico laboratorial, pesquisa e medicina baseada em evidências, áreas particularmente importantes em síndromes pouco frequentes na rotina veterinária.


InstitutoVet

O InstitutoVet atua na formação e atualização de médicos-veterinários por meio de cursos, pós-graduações, conteúdos científicos e materiais técnicos.

A síndrome compartimental é um excelente exemplo da importância do raciocínio clínico: uma alteração aparentemente localizada em um membro pode rapidamente evoluir para comprometimento muscular, neurológico, renal e sistêmico.


Conclusão

A síndrome compartimental em cães e gatos é rara, mas potencialmente devastadora. O aumento da pressão dentro de um compartimento fechado pode comprometer a microcirculação, provocando isquemia, necrose muscular e lesão nervosa.

Trauma, hemorragia, reperfusão, compressão externa e neoplasias estão entre as situações que devem levantar suspeita. Em cães, também existe uma apresentação rara envolvendo os músculos da mastigação, demonstrando que a síndrome não está restrita aos membros. Wiley Online Library

O diagnóstico deve combinar avaliação clínica, pressão intracompartimental quando indicada, exames laboratoriais e diagnóstico por imagem. Quando a síndrome está estabelecida, a fasciotomia descompressiva precoce é o tratamento fundamental para tentar preservar a viabilidade muscular e neurológica. PubMed

A integração entre InstitutoVet, Hospital Veterinário Florianópolis, RXVet Laudos, LAVEF e ScientiaLabs reforça a importância de uma abordagem multidisciplinar, especialmente diante de emergências musculoesqueléticas pouco frequentes e de rápida evolução.


Referências científicas

  1. Nielsen LK, Whelan M. Compartment syndrome: pathophysiology, clinical presentations, treatment, and prevention in human and veterinary medicine. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care. 2012. PubMed

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